[como tem sido dito e escrito (e repetido à saciedade, sem a necessária 'separação das águas', facto que até me chateia bastante, às vezes, como está ser, agora, o caso) por inúmeros 'escrutinadores-escrevinhadores' do futebol português, uma grande parte dos seus dirigentes, se não meteu a mão na 'massa', aproveitou-se, no mínimo, da condição proeminente conseguida, nas sociedades locais e, no caso dos grandes emblemas, no país (curiosamente essa mesma proeminência que lhes foi dada por esses, os mesmos, 'escrutinadores-escrevinhadores'!!!), para, à custa do futebol, fazerem fortuna ou aumentá-la. consideravelmente.
o enriquecimento célere era conseguido - principalmente, diziam - à custa de especulações imobiliárias, obras públicas e outras manigâncias, às quais muitos autarcas não seriam, de todo, completamente estranhos (vidé, maria josé morgado).
não tendo, eu - nunca - revelado grande, nem pequeno, empreendorismo na matéria 'de como me aproveitar do futebol para ficar rico à custa dele' não deixei, porém, de ter algumas 'nódoas' num percurso associativo desportivo e empresarial que é, de um modo geral, publicamente conhecido]
no início dos anos 90, em faro, no condomínio onde vivia, uma manhã, descendo à segunda cave do prédio onde tinha a 'garagem' , deparei(-me) com o maior pandemónio que se possa imaginar: num 'mar' de vidros (de automóvel) partidos, polícias e moradores contabilizavam os danos causados por um roubo madrugador que não poupara auto-rádio, nem 'coisa' interessante, vendável, deixada, inadvertidamente, na viatura.
não poupara, não! não era bem assim.
o meu carro estava miraculosamente intacto, sem um 'arranhão'!
conseguem imaginar a cena?...
a todos lhes prepassando pela cabeça que, se não fora eu a fazê-lo, no mínimo, teria sido o mandante da criminosa operação!... mais a mais, uma tipo ligado ao futebol!...
abandonei o teatro do crime, de fininho, não sendo necessário dizer-lhes que nunca me tinha visto tão embaraçado na vida!...
nem quando...'isso' - agora - não vem ao caso.
como em qualquer (bom!) romance, deixem-me, antes de concluir esta estória, relatar-lhes um outro episódio ocorrido, mais ou menos por essas alturas (não foi o da 'coca' enviada da colômbia, não!...desse falarei noutra ocasião), no balneário do 'sporting clube farense'.
uma tarde, após um treino da equipa principal, no balneário do ginásio-sede que estava, temporariamente, a ser utilizado em virtude das obras de adequação do 'são luís' ao 'mundial de júniores-1991', fui alertado para o facto dos jogadores terem sido espoliados de tudo o que era fio de ouro, pulseira ou relógio, durante o período do apronto vespertino conduzido pelo 'paco' e 'fanã'.
outro 'roubo' por resolver...
passados uns tempos, para aí umas duas (?), três (?), semanas mais tarde, saía do então bar 'portofino', cerca das duas da manhã, acompanhado pelo joaquim barão, o dono, meu amigo e companheiro nos orgãos sociais do clube, quando cruzámos com o líder dos 'metralhinhas', um grupo de irmãos, todos muito miúdos, que a vida desde cedo tinha atirado para a 'rua', para o reformatório, ou prisão, em suma, para a dura realidade do 'salve-se quem puder'.
como o conhecia, praticamente, desde o 'berço', feito nos braços da mãe pedindo para 'a côdea', pedi-lhe, energicamente, que me dissesse quem tinha roubado o balneário do 'farense'?...que só podia ter sido ele... por isto e por aquilo...o furto tinha a sua assinatura...enfim, toda a rotina de interrogatório aprendida na literatura da especialidade.
alguns minutos mais tarde, depois de, sempre categoricamente, ter negado a autoria do roubo, acabando, mesmo, por sugerir outra pista (que veio, mais tarde, a confirmar-se, em pleno), virou-se para mim, de dedo espetado, olhos nos olhos, interpelando-me:
- você acha que, alguma vez na vida, eu faria mal ao 'farense'?...ao 'paco'...ou a um jogador nosso?...a alguém do 'farense'?...é isso que pensa de mim?...está completamente enganado!...
e virou-me as costas, profundamente ofendido...mas ainda com tempo para, confirmando o seu vasto conhecimento da planta da cidade e do seu parque automóvel, me perguntar, em tom, claramente, afirmativo:
- o 'presidente' ainda tem o mesmo carro?...e vive na 'avenida do liceu'?...é, não é?...
se mudar, de casa ou de carro, não se esqueça de (me) avisar...tá?
como vêem, meus caros, ninguém, no futebol, pode invocar um passado sem mácula ou reivindicar o mais completo distanciamento do sub-mundo.
e, ao mesmo tempo, os 'bons da fita' tentarem ignorar que este povo - todo - desde o nascido na maternidade ao parido por debaixo da ponte, ama o futebol!