diz quem muito bem sabe
"Em 1999, Jorge Valdano lançou a Make a Team, a sua ideia era passar para bancos, seguradoras, empresas de novas tecnologias, lições que foi aprendendo nos campos de futebol...
— Já lá não está, vendeu a sua participação, mas a Make a Team não fazia bem aquilo que nós estamos a fazer. Intervinha na área das empresas, com a sua experiência de jogador, de treinador, eu fui buscar as nossas referências aos Estados Unidos, a Team Work Consultores faz diferente: replica no mundo das empresas o treino de pessoas e equipas na área comportamental em geral, aborda as questões da liderança, o modo de se dirigirem equipas, de se trabalhar com maior ou menor coesão...
— A empresa como microcosmo do estádio, do pavilhão...
— Exacto. E em ambos os mundos do que se trata é de pessoas. E quer no desporto de alto rendimento, quer nas empresas, há quatro factores em jogo: o líder; a equipa, os seus membros, as suas relações, o que cada um vale, como é que cada um se relaciona com os outros; o objectivo comum, o resultado, a meta; e o meio-ambiente, que é tudo o que está à volta das equipas, factor que tem cada vez mais influência tremenda. Quem viu o que aconteceu no Espanha-Rússia não foi capaz de identificar a Rússia que jogou contra a Holanda. O que é que mudou? O meio ambiente! Lembra-se de na véspera do desafio com os espanhóis, Guus Hiddink ter dito que os empresários andavam todos à volta da grande maioria dos seus jogadores, que respeitava a sua liberdade individual, que não tinha forma de impedi-lo? Pois, foi essa mudança no meio ambiente que alterou drasticamente o resultado. A equipa russa que jogou contra a Holanda uniu-se à volta de um objectivo comum, de uma liderança determinada, a que que jogou contra a Espanha já não era a mesma, sendo a mesma. Sim, os corpos dos jogadores eram os mesmos, as mentes não eram, deixaram de estar focadas no resultado da selecção, passaram a estar focadas nas suas vidas particulares... Ou seja, a criação do objectivo comum, que é um dos factores que nós na Team Work ajudamos a criar aos nossos clientes , desapareceu em três dias nos russos, deu no que deu...
— Quase se poderia dizer o mesmo de Portugal, do anúncio abrupto da saída de Scolari para o Chelsea...
— Sim, julgar que essa notícia não teve importância nenhuma é mistificar a realidade. Isso lesou profundamente o grupo. OK, os jogadores afirmaram não ficar perturbados, era o que lhes competia, fizeram-no muito bem. Só que, como explicou, depois, na TSF uma socióloga que fez estudos sobre o Euro-2004 e o Euro-2008 a partir de inquéritos aos adeptos com aquele anúncio houve cortes trágicos, o corte de confiança, o corte da identificação - e a mágoa, mágoa por se sentirem relativamente perdidos todos aqueles que souberam assim que alguém com quem estavam tão identificados afinal decidira ir embora...
— Luís Aragonés fez o mesmo e a Espanha acabou campeã da Europa...
— Só que coisas assim têm um efeito muito maior quando o líder está tão profundamente identificado com o grupo e no caso da Espanha o clima entre os jogadores não estava, como estava no caso de Portugal, no plano da idolatria, do reconhecimento absoluto da liderança. Olhe, por exemplo, ao ver toda a gente apegada à ideia de que foram os substitutos que levaram à apatia da nossa selecção contra a Suíça para dentro de campo, na minha cabeça repercutiu de imediato a convicção de que se lá estivessem os titulares teria acontecido o mesmo. Lembra-se do Euro-2004: quando o senhor, em conferência de imprensa jurou que só queria pensar na selecção, que ninguém se atrevesse a fazer-lhe convites, que o Benfica nunca mais?! O que aconteceu então foi o contrário ao que aconteceu agora: suas palavras foram um impulso de coesão, a tal lógica do objectivo comum, está a ver?!...
Empresários no hotel...
— Nesse sentido talvez tenha sido ainda mais devastadora a liberdade de circulação de empresários no hotel da selecção, Deco fazendo viagem-relâmpago para se libertar do Barcelona, enfim...
— Os empresários dos jogadores pensam nos interesses particulares dos jogadores, incrementam-nos, retiram a mente dos jogadores do objectivo comum e colectivo para o objectivo particular. OK, os jogadores têm direito à sua liberdade individual, mas o treinador tem o direito de procurar o mais possível obstar a que esses interesses individuais se sobreponham aos interesses colectivos. E se eu sei, como todos sabemos, que se a presença de empresários é nociva dessa concentração no interesse comum, o treinador tem de impedir que tal aconteça, que eles lá estejam. Posso estar a especular, mas será que o desaparecimento de alguns jogadores russos contra a Espanha não teve a ver com o facto de, depois de ganharem à Holanda, as suas cabeças se concentraram apenas nos astronómicos contratos que lhes foram propostos? Querem-me dizer a mim, que treinei equipas durante 36 anos, que não passa por alguns dessas cabeças a ideia perversa de que se eu meto mal o pé e parto a perna lá se vai o meu airoso futuro?!...
— Nos milhões do Real pode, então, estar também a justificação para o facto do Ronaldo do Manchester não ter aparecido no Euro?
— Não quero pessoalizar questões, mas o que acabei de dizer-lhe vale para tudo..."






