" De uma desgraça privada o caso do BCP passou pouco a pouco a uma desgraça pública. Enquanto se tratou só da direcção do banco, de um grupo de accionistas (com direito a voto) e em geral dos depositantes, todo aquele enredo (de resto, nada edificante) não fez mais do que demonstrar a incompetência e a fraqueza do capitalismo português. Com a intervenção de Vítor Constâncio começou a suspeita de que, para lá da inanidade à vista, havia trapalhada grossa. A esperteza saloia tinha entrado na história de faca e alguidar. Caiu o segundo presidente, Filipe Pinhal, dias depois de eleito, e apareceu em cena a gente do costume: antigos ministros (das Finanças, claro), antigos secretários de Estado e antigos gestores de empresas públicas, que desde o fim do PREC se apropriaram colectivamente dos 'grandes negócios'.
Nasceram no I Governo constitucional e cresceram atá agora na maior tranquilidade. Andaram pelo 'soarismo', pelo 'cavaquismo' (que os promoveu muito), pelo 'guterrismo' (que os deixou à solta), pelo fugitivo Barroso e mesmo por Santana (que protegeram e guiaram). são do PSD, mas muito amigos do PS; ou do PS, mas muito amigos do PSD. O que não quer dizer que sejam o 'centrão'. O 'centrão' é a cozinha dos partidos para a pequena gente: para o funcionalismo, para as câmaras, para os subsídios. Com outra envergadura ( e outro apetite), este 'clube' vive de amizades particulares, de confiança mútua, de exclusividade. Rodam e voltam a rodar. Cá fora tudo muda, eles nunca mudam. Basta ver os nomes dos que se fala para o BCP e a Caixa. Não os conhecem?
Esta espécie maligna é um sintoma do famoso domínio do poder económico sobre o poder político? Não é. É a consequência natural da participação do Estado nos 'negócios'. Se o Estado saísse da PT, da EDP e da Galp e, principalmente, se vendesse a Caixa Geral de Depósitos, ficava com a autoridade e a distância para fiscalizar e regular a actividade dos privados. Como sócio ou concorrente, está metido no meio do barulho e 'politiza' inevitavelmente qualquer incidente em que lhe aconteça tocar. como no BCP. A mistura leva sempre à irresponsabilidade e à dependência. A separação presume a independência e a responsabilidade. Num país normal não concorreriam à administração do maior banco privado duas listas 'partidárias': uma 'do Governo' e uma 'da direita'. Num país normal, há coisas que simplesmente não sucedem e pessoas que simplesmente não existem."
(vasco pulido valente, jornal 'público' , sublinhados meus)
na minha modesta opinião não é preciso o estado sair das empresas públicas estratégicas para passar a ser uma pessoa de bem.
no resto?...
trata-se de um retrato preciso e de um texto notável.
como vpv o sabe fazer.